O Iniciado – Capitulo I


Estávamos no Amarelinho, um bar de boa fama na Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro, palco de importantes eventos da vida carioca. A boa do dia era uma tábua de frios regada a muito Chopp.
A razão do encontro? Ninguém sabe, talvez por ser sexta feira já fosse um bom motivo para a reunião que já passava das 21 horas e que pelo jeito iria se estender à uma boate próxima assim que nos expulsassem dali.
Eu, Raphael, Julius, Robson, Cris Mariana e Helena éramos o elenco fixo, mas em determinados momento chegávamos a ter 15 pessoas se exprimindo nas três mesas da varanda do bar gentilmente juntada pelos garçons. Uma nata de amigos, conhecidos e até alguns estranhos simpáticos a rachar um ou outro Chopp.
Em determinada hora percebo Julius olhando atentamente pra mim, já tinha percebido uma alteração na aura dele, mas no brilho da cerveja nem dei muita atenção. Julius era um amigo de longa data e já tínhamos passado por “poucas e boas” juntos, história é o que não faltava nos mais de 15 anos de amizade que tínhamos e sabia que não dava para ignorar aquele comportamento no mínimo preocupante, até que ele dá um jeito de juntar o povo e fazer uma selfie, legal, um registo de mais uma noite entre amigos sempre é bem-vinda.
Logicamente que todo mundo quis ver a foto, fui um dos últimos a pegar o celular na mão e pra minha surpresa eu estava nu.
– Qual a deste aplicativo? Como você fez isso meu caro? – Perguntei curioso.
– Que aplicativo Marcus, a selfie tá maneira. – Comenta o Robson.
Os outros confirmam em quase uníssono a beleza da foto.
– Mas como você tirou a minha camisa Julius? – Exclamei indignado.
– Acho que o Marcus está chapado. – Comentou Mariana com Raphael.
– Chapado estão tuas digníssimas. – Desabafei.
Chamei Julius de canto para saber mais daquela brincadeira, afinal, o cara da informática aqui não queria passar por ignorante na sua área.
– E ai Julius agora pode contar a novidade que deixei passar batido? Indaguei-o próximo ao ouvido.
– Marcus, olha para baixo. – Olhei. – E então?
– Realmente tá faltando roupa aqui mesmo. – Respondi com uma serenidade de quem aceitava o fato mas no fundo não conseguia acreditar. – Mas qual é a parada?
– Você foi escolhido. – Explica Julius.
– Para pagar mico?
– Toma esta pílula e não me pergunte nada.
Peguei o comprimido em gel e engoli sem reclamar, quase que instantaneamente me vi com uma túnica preta costurada com fios prateados e um dragão estampado no peito também em cor prata.
– Assim tá melhor mas qual a da pílula, a túnica e o truque de mágica, tem um “gran finale” vindo ai ainda?
– Não. – Respondeu Julius monossilábico.
– Sério, o que realmente está acontecendo Julius?
– Nada demais por enquanto.
– Como assim nada demais? Estava nu e ninguém viu, sequer na foto?
– Tudo a seu tempo, por agora curta a noite, e não se preocupe, para todos você está de camiseta e jeans como antes, a túnica é só para te deixar a vontade. Assim que acabar a noite tudo será esclarecido.
– Percebi que estou à vontade, estou sentindo o vento sul batendo nos países baixos. – Respondi irônico. – Então vamos beber e depois “partiuboate”.
Obviamente que no decorrer da noite sempre que podia tentava colar no Julius tentando tirar algo que me deixasse um pouco ” mais confortável” mas o máximo que conseguia era um pedido de calma.
A angustia perdurou o restinho de noite, mas em determinado momento a situação me divertia, principalmente em tentar descobrir o que era aquela roupa meio medieval e como que algumas mulheres conseguem sair de saia curta com frio. Mesmo assim, como Julius foi parar numa coisa como esta? Porque ele não está de túnica? Porque eu?
A boate já se esvaziava quando Julius me chamou para ir embora e a apreensão por respostas voltou à tona.
Já do lado de fora da boate tomamos o rumo da Cinelândia novamente e então sozinhos pude sabatinar o amigo em busca de respostas para tantas perguntas.
– A propósito Julius, independente do que vá me falar posso ficar com esta roupa? Achei muito legal.
– Não. – Respondeu secamente o amigo.
– Porque?
– Ela é minha, só te emprestei pra que ficasse mais à vontade.
– Mais à vontade?
– Sim, não sei se reparou mas ninguém pode te ver neste estado.
– Que estado? Outra dimensão? Alguma coisa sobre física quântica?
– Não posso te dizer, vai ter que confiar em mim.
– E você, porque não está usando roupas semelhantes?
– Já possuo conhecimento suficiente para me controlar em determinadas situações, por isso você não me viu de roupas de iniciados como as que te dei.
– Iniciado? Não vá me dizer que uma destas sociedades secretas tem algo a ver com isso.
– Nem de perto Marcus. Acho que você está fazendo perguntas demais para o momento.
– Que perguntas demais, que nada mané, preciso entender o que está acontecendo nesta merda, quer me deixar neurótico, mais do que sou?
– Outra pergunta. – Responde Julius.
– Aff!!
Fiquei quieto por alguns momentos e quando me dei conta estávamos nas escadarias do metro da Cinelândia e percebi que as grades ainda estavam fechadas.
– Vamos atravessar algum portal igual ao Harry Potter?
– Adivinhão… Seine ainêmáturé – Respondeu Julius me empurrando de encontro as grades.
Por alguns momentos senti um grande formigamento no corpo e a única coisa que vi foi uma luz forte, acredito que se ficasse mais algum tempo naquele lugar, ficaria cego. Assim que voltei a enxergar, me vi num salão circular com uns 10 metros de diâmetros sem nenhuma porta e com seis colunas, praticamente coladas a parede, tipicamente gregas e parecendo ser de mármore, contudo ao colocar a mão em uma delas senti aquele mesmo formigamento no corpo semelhante à uma corrente elétrica bem fraca. De tudo que vi uma coisa era certa, não havia modo de sair daquele lugar.
Enquanto olhava ao redor revejo Julius, imponente, com uma túnica semelhante a minha, na sua cabeça uma espécie de elmo tipo os de centurião romano, todo prateado e no lugar de penas uma forte luz incidia sobre o suporte de penas, porém embaixo do elmo um óculos escuro. Sobre os ombros um gorjal medieval, as pernas eram cobertas por uma cota de malha até os pés e curiosamente um tênis da hora compunha a vestimenta do rapaz.
– Sabia que tinha algo de medieval nesta história, mas qual a do elmo romano e do tênis?
– Errou de novo Marcus e cala a boca por favor, tuas teorias são até que legais, mas atrapalham minha concentração. Esta espécie de armadura é só para não sentir os efeitos da passagem. A propósito, desculpa pela grosseria, mas se eu te antecipasse algo talvez não te trouxesse aqui.
– Vou fazer uma última pergunta e quero uma resposta no mínimo compensadora, caso contrário, me passa o bilhete de volta pra Cinelândia que eu quero voltar pra Nikity City. QUE PORRA ESTÁ ACONTECENDO AQUI? – Gritei cuspindo pra todo canto.
– Amigo com todo respeito, eu sei, mas não me importo, minha missão é te levar à um lugar em especial. Agora fica quieto pois daqui em diante não tem volta, e você como escolhido não tem opção a não ser ficar quieto. Ficamos claro? – Concluiu Julius em um tom tão tranquilo que me deu medo.