O “Pastor”


Um senhor de meia idade ocupou o leito 5 da Observação, o chamava de “Pastor” e ele me atendia, daí ficou, mas o nome dele é Ciclano Evangelista.

Não vi nada de extraordinário na figura à minha frente. Talvez o fato do indivíduo ser um fanático religioso. Um membro fiel de uma igreja pentecostal qualquer.

Ignoraria este indivíduo completamente, mas enfim, todo extremista incomoda.

Orações do acordar ou dormir, além é claro de tentar curar ou converter seus vizinhos de leito.

Não sei qual a lógica que funciona com estes extremistas, um doente querendo curar outro, mas não pode curar a si mesmo.

Tá certo que algumas correntes religiosas terão uma resposta na ponta da língua, todavia nem tente me convencer do contrário.

Sou um “ateu protestante”, acabei de me definir (Abro um parêntesis aqui, afinal de contas se qualquer um pode criar uma religião, porque eu não?). Resumindo bastante minha nova religião, até porque não criei ainda as suas regras, sou um indivíduo que não acredita em religião, mas ainda tenho uma paixão pelo divino.

Voltando ao “Pastor”, obviamente que ia ter um momento que direcionaria sua atenção a mim.

Não toque em mim, foi uma saudação até que amistosa para o primeiro contato.

Podem me chamar de grosseiro, mas não sou hipócrita, além do que, estou internado numa ala de psiquiatria. Posso me dar alguns luxos de não usar alguns filtros sociais neste contexto. Me deu um imenso prazer (Sou sádico?).

Com o salvo conduto do primeiro contato, me permiti ao “Pastor” ouvi-lo. Um discurso gravado, de frases feitas, e um jesus aqui e acolá. É uma lástima que muitos que se aventuram por este caminho, o fazem sem conhecer o que falam e não possuem o mínimo dom da oratória.

Nos vários contatos que tive com o “Pastor”, tentei em vão ajuda-lo, tanto no conhecimento religioso, como na tentativa de ajuda-lo a sair daquele lugar, mas, por alguma razão desconhecida não surtia efeito.

Não que eu seja lá grande coisa nisso, mas, fui criado num lar evangélico e desde pequeno instruído no conhecimento da bíblia, me sentia compelido a ajuda-lo. Era um horror sem fim tanta falta de saber.

Mas voltando ao que interessa ou não, estávamos numa ala psiquiátrica do hospital chamada “Observação”. Basicamente é uma triagem onde se verifica se o indivíduo merece uma atenção maior ou se pode seguir outro caminho em casa, posto de saúde ou algo semelhante, todavia na prática era uma sala de espera da psiquiatria. Amavelmente chamei aquele lugar por um bom tempo de sala do carimbo. Se a avaliação do médico fosse boa, carimbo de alta se fosse ruim, carimbo de desparafusado e descia para a psiquiatria (pelo que percebi a psiquiatria era um andar abaixo, daí sempre falavam que o paciente desceu).

Meu último contato com o “Pastor” foi um dia antes de descer para psiquiatria, quando dei umas dicas para que utilizasse no dia da avaliação médica, sugeri até que evitasse alguns comentários de fé extremado.

Chegado o dia da avaliação médica passei com louvor e tinha uma vaga na psiquiatria, desci direto, mas não antes de ver a avaliação do pastor pela mesma médica;

-Sr. Ciclano Evangelista, porque você está aqui?- Perguntou a médica.

– Estou aqui porque o Brasil está num momento difícil da política e estou orando pelo Brasil.

A doutora insiste com algumas perguntas básicas, porém as respostas seguem os caminhos mais absurdos que se possa imaginar. Para jogar uma pá de cal no assunto e mandar o “Pastor” fazer um transplante de cérebro, nossa querida psiquiatra pergunta quanto é oito vezes oito.

Depois de gaguejar algumas vezes e pensar muito na resposta eis que vem a pérola.

-Bom, doutora, se dez vezes dez é cem, oito vezes oito é oitenta.

Podia-se ouvir a doutora já com uma irritação na voz, acompanhada de um riso contido de toda a enfermaria e um assusto total da minha parte, gesticulando com gestos de interrogação, por trás da doutora, mas parece que o pastor continuaria no mesmo tom.

-Pelo que você me diz então nove vezes nove é noventa?- Argumenta nossa Médica, intrigada.

-Sim Doutora. -Confirmou o “Pastor”.

Até o dia que sai, não tive mais notícia do pastor. Acredito que tenha tido alta por voto vencido.